
Ismael Alves – O uso de uma aeronave adquirida pelo Governo de Pernambuco para suporte aeromédico em viagens da governadora Raquel Lyra entrou no radar após revelação da Folha de S.Paulo.
Aeronave de R$ 64,3 milhões teria tido equipamentos médicos retirados para transporte da governadora; gestão nega irregularidade
O avião, um King Air 260 comprado por R$ 64,3 milhões com recursos da Secretaria de Defesa Social (SDS), foi incorporado à frota estadual em dezembro de 2025 com a justificativa de reforçar atendimentos de saúde em situações de urgência. A aquisição havia sido formalizada em julho do mesmo ano.
Apesar da finalidade apresentada inicialmente, registros obtidos pelo jornal indicam que o equipamento passou a ser utilizado também para deslocamentos da chefe do Executivo estadual em agendas fora do campo aeromédico.
A primeira ocorrência, segundo a reportagem, aconteceu poucos dias após a entrega da aeronave. Raquel Lyra viajou a Brasília para compromissos institucionais, incluindo reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de encontros políticos com integrantes do PSD.
Para viabilizar o transporte de autoridades, documentos apontam que, em 15 de dezembro de 2025, houve autorização do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) para retirada temporária da estrutura médica instalada no avião.
Na mesma data, ainda de acordo com a Folha de S.Paulo, o governo recorreu a uma empresa privada de táxi aéreo para realizar o deslocamento de um paciente e uma operação de captação de órgãos, com custo estimado em R$ 100 mil.
O uso da aeronave em agendas administrativas e políticas não teria sido pontual. A publicação relata deslocamentos para São Paulo, durante o leilão da concessão do saneamento em Pernambuco, além de novas viagens a Brasília para reuniões com prefeitos. Também há registros de utilização em maio deste ano, incluindo compromissos no Agreste, na capital federal e novamente em São Paulo.
Quando foi apresentada oficialmente, a aeronave havia sido destacada pelo Grupamento Tático Aéreo (GTA) como reforço estratégico na área de saúde. Em publicação institucional, o órgão ressaltou que o equipamento garantiria mais rapidez e segurança em missões críticas, sobretudo no transporte de pacientes e equipes médicas.
Procurado, o Governo de Pernambuco rebateu a interpretação de uso indevido e afirmou que não há desvio de finalidade. A gestão sustenta que toda a frota aérea estadual é empregada dentro de parâmetros legais e voltada a atividades de interesse público.
Segundo o Executivo, o avião segue sendo utilizado em operações aeromédicas, resgates e transporte de órgãos, somando 55 missões desde sua incorporação.
A administração estadual também afirma que o uso para deslocamentos institucionais não compromete atendimentos emergenciais, já que outras aeronaves permanecem disponíveis para essas demandas.
Outro ponto destacado pelo governo é a predominância de voos comerciais nas viagens da governadora desde o início da gestão, em 2023. De acordo com os dados apresentados, foram 158 trechos nesse formato, com economia estimada em R$ 880 mil. A gestão ainda menciona a quitação de R$ 1,6 milhão em contratos de táxi aéreo herdados de administrações anteriores, referentes ao período entre 2019 e 2022.
A Secretaria de Defesa Social também refuta a hipótese de descaracterização do avião, afirmando que a aeronave mantém identificação visual oficial. Sobre a retirada dos equipamentos médicos, o órgão explica que o procedimento é temporário e não compromete a capacidade operacional, sendo revertido ao fim de cada missão.
Leia a nota:
O Governo de Pernambuco informa que as aeronaves citadas integram a frota pública estadual e são utilizadas somente em missões institucionais de interesse público, incluindo ações de segurança pública, defesa civil, apoio aeromédico, transporte de equipes técnicas e deslocamentos oficiais. As aeronaves pertencem ao Estado e sua utilização segue critérios técnicos, operacionais e legais estabelecidos pelos órgãos competentes.
Na área da saúde, por exemplo, as aeronaves são empregadas em remoções aeromédicas, repatriações, operações de resgate e transporte de órgãos para transplante. Desde a aquisição das aeronaves, já foram realizados 55 deslocamentos para essas finalidades. Na segurança pública, também são utilizadas no transporte de efetivos em operações policiais.
Desde 2023, os deslocamentos da governadora Raquel Lyra ocorrem, em sua maioria, por meio de voos comerciais. Desde o início da gestão, foram registrados 158 trechos, gerando uma economia de R$ 880 mil. Entre 2020 e 2023, o governo liquidou o montante de R$ 1,6 milhão referente a contratos de táxi aéreo utilizados no período de 2019 a 2022, anterior à atual gestão.
Já os deslocamentos em aeronaves oficiais ocorrem para o cumprimento de agendas institucionais de interesse do Estado, em conformidade com a portaria 734/SDS, de 16 de maio de 2010. Nessa modalidade, foram realizados 45 trechos, sem qualquer prejuízo às operações de saúde e segurança pública, uma vez que outras aeronaves permanecem à disposição para o atendimento dessas demandas.
Não há, por parte da Secretaria de Defesa Social (SDS), qualquer descaracterização da aeronave mencionada, uma vez que ela possui elementos visuais que identificam claramente seu uso público, como o brasão do Estado e a identidade visual da SDS. Nos deslocamentos que não envolvem missões de saúde, os equipamentos médicos são temporariamente retirados e reinstalados ao término da operação, sem comprometimento de sua funcionalidade.










