
Ismael Alves – O Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) apontou R$ 905,2 mil em prejuízos relacionados a pagamentos por procedimentos cuja execução não foi considerada suficientemente comprovada na documentação analisada em auditoria realizada na Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns.
A unidade pertence ao marido da vice-governadora de Pernambuco, Priscila Krause, integrante da gestão da governadora Raquel Lyra (PSD). O relatório recomenda a devolução dos valores ao Fundo Nacional de Saúde e também apresenta questionamentos sobre a forma como o Governo de Pernambuco estruturou e fiscalizou os contratos mantidos com o hospital.
A auditoria examinou serviços contratados pela administração estadual entre janeiro de 2023 e julho de 2025, após uma demanda apresentada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco.
Maior parte do valor está relacionada a procedimentos assistenciais
Dos R$ 905,2 mil apontados pelo DenaSUS, R$ 897,25 mil correspondem a procedimentos assistenciais cuja realização, segundo os auditores, não foi adequadamente comprovada nos prontuários analisados.
Na área de hemodiálise, foram examinados 507 prontuários, que reuniam registros referentes a 2.602 autorizações de pacientes submetidos ao tratamento. O cruzamento das informações com folhas de frequência, prescrições, controles específicos e registros das equipes médicas e de enfermagem levou à identificação de 90 sessões consideradas sem comprovação suficiente.
O hospital contestou esse apontamento e informou ter localizado posteriormente documentos referentes a 15 das sessões questionadas. Ainda assim, o relatório final manteve as 90 sessões no cálculo utilizado para recomendar o ressarcimento.
A auditoria também analisou atendimentos relacionados ao tratamento de câncer. Foram incluídas na proposta de devolução 113 Autorizações de Internação Hospitalar pagas entre janeiro de 2023 e maio de 2025, envolvendo situações classificadas pelos auditores como pagamentos a maior ou procedimentos sem comprovação.
Em parte dos atendimentos de quimioterapia, o relatório aponta ausência do Controle de Frequência Individual e de documentação considerada suficiente para comprovar a aplicação dos ciclos cobrados do SUS.
O DenaSUS, entretanto, considerou regulares os pagamentos referentes às diárias de UTI e registrou que a maior parte dos recursos analisados foi aplicada corretamente.
Auditoria questiona modelo de contratação adotado pelo Estado
Além da execução dos procedimentos, o relatório avaliou a relação contratual entre o Governo de Pernambuco e o hospital.
Na avaliação dos auditores, o modelo adotado se aproximaria de uma “contratação direcionada de fato, ainda que não formalmente”. O documento também aponta fragilidades no planejamento, no acompanhamento dos serviços e nos mecanismos de controle utilizados pelo Estado.
Segundo a auditoria, a manutenção de relações contratuais de elevado valor com uma instituição vinculada a familiar de agente político de alto escalão, sem instrumentos considerados robustos de planejamento e fiscalização, representa risco aos princípios da impessoalidade, moralidade e transparência.
O relatório aponta ainda problemas relacionados à governança da contratação, ao monitoramento da execução dos serviços, à comprovação da produção assistencial e aos controles internos.
Governo de Pernambuco contesta informações
O Governo de Pernambuco contestou informações relacionadas aos valores repassados ao hospital.
Em manifestação divulgada anteriormente, a gestão estadual afirmou ser “mentirosa” a informação de que a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro teria recebido R$ 100 milhões entre 2023 e 2025. Segundo o governo, aproximadamente R$ 67 milhões foram repassados à instituição no período pelos serviços prestados.
A gestão também afirmou que, nos períodos em que Priscila Krause esteve como governadora em exercício, os repasses totalizaram R$ 2.444.419,91, e classificou como “mentirosa” a informação de que os pagamentos teriam alcançado R$ 37 milhões.
A Secretaria de Saúde de Pernambuco informou ainda que pretende questionar as conclusões da auditoria e buscar a revisão do relatório.
Hospital também contesta apontamentos da auditoria
O hospital questionou as conclusões do DenaSUS e afirmou ter documentação capaz de esclarecer parte dos procedimentos apontados no relatório.
A instituição informou que pretende apresentar os documentos pelas vias cabíveis e sustentou que parte das divergências identificadas pela auditoria estaria relacionada à interpretação da documentação e dos registros dos procedimentos realizados.
A unidade também reafirmou seu compromisso com o atendimento pelo SUS e com a população de Garanhuns e da região.
A auditoria foi encerrada em 12 de agosto de 2026. O relatório recomenda medidas para correção dos problemas identificados, fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e eventual devolução dos valores apontados ao Fundo Nacional de Saúde.
O caso ocorre em meio à disputa política pelo Governo de Pernambuco entre Raquel Lyra e João Campos (PSB). Segundo informações divulgadas sobre a apuração, a denúncia que motivou a auditoria foi apresentada por um aliado do prefeito do Recife. Em fevereiro, Raquel Lyra teria levado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamações sobre a investigação, que, segundo a reportagem, foi considerada pelo governo estadual uma tentativa de desgastar sua gestão.










