
Ismael Alves – À medida que o escândalo do Banco Master ganha corpo, revelando uma trama de cifras bilionárias e indícios perturbadores de favorecimento em gabinetes de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), um outro elemento no mesmo caso consegue ser ainda mais gritante. A exposição deliberada de conversas íntimas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com sua então namorada, Martha Graeff, rompeu a fronteira do interesse público para se transformar em um espetáculo de voyeurismo institucionalizado.
Detalhes de um casal entre quatro paredes, que em nada colaboram com a apuração dos crimes financeiros que levaram o banqueiro à prisão pela segunda vez, foram jogados aos leões da comunicação digital. Ali, perfis sedentos por engajamento e “likes” não hesitaram em triturar a dignidade de uma mulher em troca de visualizações, ignorando que havia uma violação clara de privacidade fora de qualquer contexto investigativo.
O voyeurismo institucionalizado no STF e na CPMI do INSS
O mais grave é que o estopim dessa barbárie partiu da própria cúpula do Judiciário com o aval do Legislativo. Ao autorizar o repasse de dados brutos da Polícia Federal para a CPMI do INSS, o ministro André Mendonça e o STF abdicaram do dever de filtro e custódia. Era obrigação da Corte preservar o que é inerente ao processo e expurgar o que é vida privada, mas preferiram entregar o “pacote completo” a um Congresso Nacional que serviu de correia de transmissão para parte da imprensa que preferiu não ponderar.
Ver canais de informação, por colaboração direta e indireta do STF e do Congresso Nacional, expondo diálogos de cunho sexual de uma mulher que é mãe, e que poderia muito bem ser investigada sem ter sua cama devassada publicamente, é a prova de que o Estado brasileiro é o primeiro a empurrar a mulher para o abismo. Essa violência institucional não é um fato isolado de Brasília, mas uma prática que se ramifica e encontra abrigo em silêncios ensurdecedores, como o que assistimos em Pernambuco.
De Natasha Dolci às ofensas na Câmara do Recife: o vício do poder
A ‘via sacra’ da delegada Natasha Dolci é o espelho dessa engrenagem: após denunciar ter sofrido assédio sexual na Polícia Civil, ela foi submetida a um isolamento e assédio moral, além de ver sua exoneração solicitada pela SDS-PE. Enquanto isso, a governadora Raquel Lyra, mesmo diante da repercussão nacional e dos apelos desesperados da delegada nas redes sociais, esquivou-se de qualquer manifestação. É o paradoxo de uma liderança feminina que ignora o socorro de uma subordinada, obrigando a vítima a travar batalhas judiciais para não ser aniquilada pelas irregularidades da própria corporação.
O cenário de desumanização se completa na política partidária, onde o insulto é ferramenta de nivelamento por baixo. O episódio dos vereadores na Câmara do Recife, que em grupos de WhatsApp disparavam ofensas de baixo calão contra a primeira-dama Janja da Silva e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, mostra que o respeito à mulher, quando existe, ainda é condicionado à cor da bandeira. Atribuir termos degradantes a mulheres por meras posições políticas prova que a violência de gênero no Brasil é um vício estrutural que germina dentro dos próprios espaços de poder.













