
Ismael Alves – Nunca troque a boa gramática da língua portuguesa pelo excesso da pauta identitária. O cantor Toni Garrido está experimentando as consequências dessa troca precipitada. Durante participação no programa Altas Horas, da TV Globo, ele apresentou uma nova versão da música Girassol, sucesso do Cidade Negra lançado em 2002.
Na letra original, o verso dizia: “Já que pra ser homem tem que ter a grandeza de um menino”. Na nova versão, Garrido substituiu por “a grandeza de uma menina, de uma mulher”, afirmando que a frase antiga soava “machista”. O problema é que a mudança, além de alterar o sentido da canção, também demonstra um equívoco de interpretação.
O trecho original nunca tratou de gênero. “Menino” é usado de forma metafórica como símbolo de pureza, de inocência, de sensibilidade, algo que representa a essência humana e não o sexo masculino. Ao trocar por “menina” e “mulher”, o cantor acabou restringindo o sentido e criou uma conotação que antes não existia.
Da Ghama, um dos compositores da música, chegou a afirmar que se sentiu “altamente desrespeitado”, lembrando que o verso fala de virtudes universais. E ele tem razão. O português é uma língua flexível e inclusiva, que contempla homens e mulheres sem precisar de distorções.
A igualdade entre as pessoas não depende de trocar palavras, mas de atitudes. O respeito deve começar de pessoa para pessoa, independentemente de cor, credo, origem ou gênero. É isso que deve ser ensinado de pai para filho e estimulado pelo próprio Governo. E também passa pelo respeito ao idioma, à arte e à inteligência de quem sabe interpretar o que lê ou ouve.
Toni Garrido agiu com boa intenção, mas acabou colhendo um constrangimento desnecessário e uma reação nacional de quem viu na mudança mais confusão do que progresso. Mas uma coisa é certa: com essa lição, ele está entendendo agora.













