
Leonardo Lima – O tema futebol e violência é sempre alvo de muitas discussões. Depois da barbárie de ontem, em Recife, o tema volta à tona e busca-se soluções para um problema antigo e negligenciado.
Escrevo, não com objetivo de “procurar culpados” ou muito menos de propor “soluções mágicas”, escrevo para que, possamos refletir sobre um problema tão complexo, que não existe solução simples e isolada, todos precisam se envolver e procurar soluções.
Tenho observado atentamente os desdobramentos do caso, e percebo nitidamente um “jogo de empurra”, isso mesmo! Um querendo culpar o outro! Repito, para problemas complexos não existe solução simples, e a solução passa pelo envolvimento de todos: Federação de Futebol, Ministério Público, Órgãos de Segurança Pública e principalmente dos Clubes.
O futebol está interligado na sociedade, é um fenômeno social e se relaciona diretamente a outras questões como a política, educação e economia. A violência da sociedade interfere no futebol assim como a violência relacionada ao futebol interfere na sociedade.
A Inglaterra por muito tempo sofreu com atos violentos causados pelos hooligans e de que forma conseguiu solucionar este problema? As autoridades britânicas decidiram reagir e em janeiro de 1990, o magistrado Peter Murray Taylor propôs uma transformação radical no futebol inglês e foi criada uma política de prevenção da violência. Em vez de tentar conter os baderneiros, antes ou depois do início dos confrontos, a polícia passou a identificá-los previamente. Todos os times ingleses tiveram de instalar em seus estádios sistemas de monitoramento por câmeras.
Com esse aparato, a polícia faz uma varredura virtual à procura de torcedores brigões. Assim que um hooligan é localizado, é retirado do estádio. O embate entre policiais e torcida foi substituído pelo trabalho discreto de inteligência. Há um oficial escalado para estudar o comportamento dos torcedores de cada clube profissional inglês. Ele informa à polícia a identidade daqueles potencialmente mais perigosos.
A medida tomada pelo Governo de Pernambuco, de suspensão de torcidas nos jogos, junto com a resolução do MPPE que recomenda o cadastramento biométrico de seus torcedores, são ações similares às realizadas na Inglaterra da década de 90, um sinal que existe luz no fim do túnel, mas não será suficiente.
No Brasil, duas questões explicam a violência persistente: as penas brandas previstas no Estatuto do Torcedor e a impunidade. O sentimento de impunidade e a relação entre clubes e “organizadas” precisam ser revistas, cadê a responsabilidade dos Clubes e seus dirigentes, como prevê o Estatuto do Torcedor?
Em 2008, quando estava na Secretaria de Esportes do Governo de Pernambuco, participamos da criação do Programa “Torcendo Pela Paz”. Sob a responsabilidade da Secretaria de Esportes, em parceria com as Secretarias da Mulher, Defesa Social, Direitos Humanos, Ministério Público, Federação de Futebol e as próprias torcidas organizadas, o programa tinha a finalidade principal de combater a violência envolvendo integrantes das torcidas organizadas dos times de futebol do Estado.
Foram realizadas diversas ações, desde medidas socioeducativas com os torcedores que foram processados e julgados por causas de menor complexidade e menor potencial ofensivo, como também a criação de uma câmara técnica para discussão e elaboração de políticas para a promoção da paz nos esportes, campanhas educativas, cartilhas, oficinas de sensibilização e etc. É preciso retomar essas ações.
A violência nos estádios é parte da violência da sociedade. Para que ambas sejam enfrentadas, são necessários instrumentos de repressão e de prevenção, leis duras e seu cumprimento efetivo, ações de prevenção e promoção da cultura de paz, por fim, realmente é difícil apontar uma solução exata para o problema, porém, já estamos visualizando experiências de outros países serem introduzidas e compreender que apenas o trabalho em conjunto, de todos os atores pode solucionar este problema.
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Leonardo Lima
Fisioterapeuta, Professor Universitário
Assessor Técnico na Secretaria de Esportes de Pernambuco (2007-2010)
Secretário Executivo de Saúde de Gravatá em 2024.









