
Ismael Alves – A campanha à reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD) passou a administrar uma nova pressão na reta final da disputa pelo Governo de Pernambuco. Neste domingo (20), ganhou ampla repercussão nas redes sociais um vídeo gravado em 2025, durante uma agenda da governadora no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no qual ela sugere que uma mulher seja submetida a uma laqueadura sem saber do procedimento.
A fala ocorre enquanto Raquel conversa com pessoas ligadas à unidade hospitalar. Uma mulher relata o caso de uma paciente que estaria grávida novamente e já teria sete filhos. Depois de afirmar que seria necessário fazer a laqueadura e colocá-la na fila do procedimento, Raquel acrescenta: “Mas faz sem ela saber!”. A paciente mencionada não aparece nas imagens e não há informação de que a cirurgia tenha sido realizada.
Raquel se desculpa e retoma discurso de campanha
A repercussão foi seguida, no mesmo domingo, por uma manifestação da própria governadora nas redes sociais. Raquel reconheceu a fala, classificou-a como equivocada e pediu desculpas. No mesmo vídeo em que fez a retratação, afirmou defender o acesso das mulheres à informação e ao planejamento familiar pela rede pública e pediu novamente a confiança do eleitorado para permanecer no Governo de Pernambuco.
A rapidez da resposta chama atenção pelo intervalo entre a divulgação da gravação e a manifestação pública. Mais do que uma retratação, a peça publicada pela governadora reuniu, no mesmo conteúdo, o reconhecimento do erro, a defesa de sua posição sobre planejamento familiar e a continuidade do pedido de votos. O dado objetivo é que a campanha respondeu à repercussão ainda no dia em que o vídeo passou a circular amplamente.
Há também um aspecto jurídico que amplia a gravidade do episódio. A Lei nº 9.263/1996 estabelece que a esterilização voluntária depende de manifestação expressa da vontade da pessoa, registrada por escrito, depois de informações sobre riscos, efeitos e alternativas contraceptivas. A mesma legislação prevê pena de dois a oito anos de reclusão e multa para quem realizar esterilização cirúrgica em desacordo com essas exigências. Portanto, o vídeo registra uma fala que sugere uma conduta incompatível com os requisitos legais, mas não comprova que o procedimento tenha sido realizado.
Episódio surge em uma disputa marcada por números próximos
O vídeo veio a público em um momento no qual os levantamentos eleitorais mostram um cenário sem convergência completa entre os institutos. A pesquisa Datafolha divulgada em 11 de setembro registrou Raquel com 47% e João Campos (PSB) com 42% no primeiro turno, dentro da margem de erro de três pontos percentuais. O AtlasIntel, divulgado em 17 de setembro, apontou 48,7% para Raquel e 45,6% para João, com margem de erro de dois pontos, também configurando empate técnico.
Ao mesmo tempo, levantamentos recentes apresentam retratos diferentes. O DataTrends, com entrevistas realizadas entre 15 e 17 de setembro, mostrou Raquel com 46% e João com 38%. Já o RealTime Big Data, com campo de 10 a 14 de setembro, registrou João com 44% e Raquel com 43%. Os números evidenciam diferenças entre pesquisas feitas em períodos próximos e por metodologias distintas.
Voto feminino ganha peso no debate
Outro elemento relevante está no comportamento do eleitorado feminino. Pelo menos quatro levantamentos realizados desde maio registraram João numericamente à frente de Raquel entre as mulheres.
No Datafolha de maio, João apareceu com 47% entre as mulheres, contra 44% de Raquel. No levantamento Folha/IPESPE realizado em junho, o placar foi de 45% a 40% para João. Na pesquisa DataTrends de 7 a 9 de setembro, João marcou 41% contra 39% de Raquel. Já o AtlasIntel, com entrevistas entre 11 e 16 de setembro, apontou 52,3% para João e 44% para Raquel entre as mulheres.
O dado ganha relevância porque as mulheres representam 53,64% do eleitorado pernambucano, segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco. São 3.876.071 eleitoras, contra 3.349.351 eleitores homens.
Isso, porém, não significa que uma vantagem de João entre as mulheres determine o resultado geral. Os próprios levantamentos mostram diferenças maiores em favor de Raquel entre os homens. No AtlasIntel, por exemplo, a governadora marcou 53,8% entre os homens, contra 38,4% de João. O peso de cada grupo e o tamanho das diferenças dentro deles ajudam a explicar por que um candidato pode liderar entre as mulheres e, ainda assim, aparecer atrás no resultado total.
É nesse ambiente de disputa apertada, números divergentes entre institutos e predominância feminina no eleitorado que o episódio da laqueadura entra na campanha. O impacto eleitoral da repercussão ainda não pode ser medido pelas pesquisas disponíveis, mas o caso acrescenta à reta final um tema diretamente relacionado à autonomia da mulher e ao direito de consentimento sobre o próprio corpo.











