
Ismael Alves – O Brasil assiste atônito ao escândalo que toma conta das eleições de 2026 em Pernambuco, em meio às acusações sobre a existência de supostos “gabinetes do ódio” atuando nos dois principais campos da disputa pelo Governo do Estado. De um lado, a campanha da governadora Raquel Lyra (PSD) aponta a existência de uma estrutura destinada a atacar sua imagem. Do outro, a campanha de João Campos (PSB) também denuncia ofensivas contra o candidato, sua honra e seus familiares.
Os modus operandi, segundo as acusações que vêm sendo apresentadas, guardam uma semelhança incômoda: em vez de concentrar o confronto nas ideias, nos governos, nas propostas e nas trajetórias políticas, os ataques miram a vida pessoal dos adversários, buscando atingir sua honra, sua reputação, sua família e, sobretudo, seu equilíbrio emocional. É uma estratégia que não pretende só convencer o eleitor a rejeitar determinado candidato, mas destruir a imagem daquele que está do outro lado.
O caso mais estarrecedor veio à tona no final de semana, quando cartazes anônimos começaram a aparecer em ruas do Recife atribuindo a Raquel Lyra a morte do marido, Fernando Lucena, durante as eleições de 2022. A narrativa insinuada pelo material é de que a governadora teria provocado a morte para obter vantagem eleitoral. Trata-se de uma acusação gravíssima e sem comprovação, construída a partir de uma das maiores tragédias da vida pessoal de Raquel.
Fernando Lucena morreu na manhã de 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno das eleições, vítima de um ataque cardíaco. Naquela mesma noite, Raquel Lyra confirmou sua passagem para o segundo turno da disputa pelo Governo de Pernambuco. Semanas depois, derrotaria Marília Arraes e se tornaria a primeira mulher eleita governadora do Estado.
A sordidez da montagem não termina na acusação. A imagem associa Raquel a figuras que ficaram nacionalmente conhecidas por crimes envolvendo os próprios maridos, criando, deliberadamente ou não, uma associação visual capaz de produzir no imaginário do eleitor uma conclusão devastadora.
Raquel Lyra, conhecida no meio político por uma postura de aparente firmeza diante de situações adversas, desmoronou em lágrimas ao comentar o ataque. A cena teve um impacto que ultrapassou as fronteiras do debate eleitoral. Por alguns instantes, desapareceu a figura da governadora, da candidata, da adversária política. Restou uma mulher diante da exposição pública de uma das dores mais profundas de sua história pessoal.
A repercussão também produziu um fenômeno raro em uma eleição cada vez mais polarizada: a comoção atravessou as fronteiras partidárias. Até mesmo adversários políticos manifestaram solidariedade diante da dimensão do ataque. E talvez esse seja um dos poucos consensos possíveis em uma campanha que parece caminhar para uma escalada sem precedentes.
Porque há uma diferença fundamental entre atacar um político e tentar destruir uma pessoa.
João Campos também tem denunciado ataques contra sua honra e contra integrantes de sua família. Sua campanha reclama de uma estrutura que, segundo suas acusações, utiliza as redes sociais para disseminar conteúdos destinados a atingir sua imagem. Raquel Lyra, por sua vez, está no centro de acusações semelhantes contra adversários. O cenário, portanto, é de uma guerra de narrativas na qual cada lado se apresenta como vítima de uma máquina de destruição criada pelo outro.
É justamente por isso que as autoridades não podem assistir passivamente ao que está acontecendo.
Se existem “gabinetes do ódio”, milícias digitais ou estruturas clandestinas organizadas para produzir, financiar e distribuir ataques contra adversários, é preciso descobrir quem está por trás delas. Não importa se a investigação chegar ao campo de Raquel Lyra, ao campo de João Campos ou a qualquer outro grupo político.
Quem estiver cometendo crime deve responder pelo crime.
A democracia não exige uma campanha educada, silenciosa ou sem confronto. Política é conflito. Eleições são disputas de projetos e, muitas vezes, de visões completamente antagônicas de Estado e de sociedade. Candidatos devem ser cobrados, criticados e submetidos ao escrutínio público. Mas existe um limite.
Pernambuco não pode aceitar que a eleição de 2026 seja decidida pelo tamanho da máquina de destruição montada por cada grupo político. O eleitor precisa ter o direito de escolher entre projetos, não entre campanhas capazes de causar mais danos à reputação do adversário. E as instituições precisam dar uma resposta à altura da gravidade do que está acontecendo.
Porque, independentemente de quem esteja por trás dos ataques, de qual partido pertença ou de qual candidato seja beneficiado, quem utilizar a mentira, a calúnia, a difamação ou qualquer outro expediente criminoso para interferir na vontade popular precisa encontrar pela frente o vigor da lei.
Do contrário, a eleição de 2026 corre o risco de deixar de ser uma disputa sobre quem está mais preparado para governar Pernambuco e se transformar simplesmente em uma competição para descobrir quem consegue destruir melhor o adversário.










