Veja/Clarissa Oliveira – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre achou a autonomia do Banco Central uma tremenda pedra no sapato. Lula gosta de ter controle, o que obviamente não combina em nada independência da instituição. Nas palavras dele, é tudo uma grande “bobagem”. O que explica o fato de ele não esconder nas conversas com aliados que gostaria de rever a norma no futuro.
Mas, para acabar com a autonomia do BC, Lula precisa do Congresso e de uma base forte para lá de forte. Ele está bem distante dessa realidade no momento. E, mesmo assim, insiste em puxar a briga. O problema é que a queda de braço, as críticas e ataques públicos ao banco parecem jogar muito mais contra Lula do que a favor.
Primeiro, porque, ao que tudo indica, isso pode acabar colocando ainda mais pressão sobre os juros e não forçar sua redução. Ao menos é o que sugere o Boletim Focus, divulgado ontem pelo Banco Central, que colhe a percepção do mercado financeiro sobre a política econômica. Em relação à semana anterior, a projeção de inflação pelo IPCA apontada na pesquisa aumentou: de 5,74% para 5,78%. É a terceira semana seguida que a previsão aumenta.
É um sinal de que o mercado está mais nervoso e menos confiante na Economia. E isso atrapalha a vida do governo de várias formas. Afeta, por exemplo, o ânimo de investidores. E impacta, inclusive, nas decisões do próprio Banco Central na hora de equilibrar os pratos para cumprir a meta de inflação.
Lula, ainda por cima, acaba dando um holofote para o presidente do BC, Roberto Campos Neto. Afinal, se um presidente da República resolve começar uma briga com alguém, é natural que muita gente para ver de quem se trata. E Campos Neto tem seu eleitorado. Pode, perfeitamente, se cacifar para eleições futuras, se assim desejar.
Nesta terça-feira, depois de divulgada a ata da última reunião do Copom, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, resolveu dar uma acalmada nos ânimos. Fez muito bem. Ele disse que a ata veio mais “amigável” que o comunicado feito pelo banco na semana passada, depois da reunião que manteve a Selic em 13,75%. Deu a entender que ficou satisfeito com algumas das sinalizações feitas na ata a a respeito de seu pacote fiscal.
Talvez o jogo de Lula seja de morde assopra. Ele critica e responsabiliza o Banco Central pela dificuldade do governo de movimentar a economia, enquanto Haddad fica encarregado de manter uma boa relação com o banco. Se for, é um jogo perigoso.












