
Ismael Alves – A pouco mais de uma semana do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a eleição para o Governo de Pernambuco entra em sua fase decisiva com uma disputa cada vez mais concentrada entre a governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição, e o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB). Depois de uma campanha marcada por mudanças no cenário das pesquisas, grandes mobilizações e aumento da temperatura política, os dois candidatos chegam ao último trecho da corrida separados por poucos pontos nos levantamentos mais recentes.
A semana terminou com um dos maiores atos políticos da campanha no estado. Na sexta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no Recife e participou de uma caminhada ao lado de João Campos, Humberto Costa e Marília Arraes. O percurso teve concentração no Cais de Santa Rita e terminou no Marco Zero, onde Lula discursou para apoiadores. O ato ocorreu sob chuva e reuniu uma grande quantidade de militantes e simpatizantes no Recife Antigo.
A presença de Lula colocou peso nacional na reta final da campanha de João Campos. O presidente reforçou publicamente seu apoio ao socialista, embora não tenha feito ataques diretos a Raquel Lyra durante a passagem pelo Recife. O movimento também reuniu nomes importantes da Frente Popular e deu à campanha de João uma demonstração pública de mobilização na capital.
Lula, as bets e a resposta de Raquel no Recife
Um dos assuntos que ganhou espaço durante a passagem de Lula por Pernambuco foi o debate em torno das chamadas bets. Durante a caminhada, o presidente levantou um cartaz com a frase “fim das bets” e colocou o tema entre as principais mensagens de seu ato no Recife. Horas depois, já em São Paulo, Lula assinou uma Medida Provisória que determina o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país, incluindo apostas esportivas e jogos online.
O assunto tem uma dimensão diretamente ligada à disputa estadual. Durante a campanha, Raquel Lyra vem criticando João Campos pela redução, durante sua gestão na Prefeitura do Recife, da alíquota do ISS aplicada às empresas de apostas, de 5% para 2%. João afirma que a mudança ocorreu para adequar a legislação municipal às regras nacionais e ampliar a arrecadação.
Na sexta-feira, enquanto Lula estava no Recife, Raquel publicou um vídeo defendendo o posicionamento do presidente contra as bets, mas aproveitou o tema para voltar a cobrar João Campos. A governadora afirmou que as mulheres estão entre as pessoas mais afetadas pelo problema e classificou como simbólica a coincidência entre o anúncio de Lula e a presença do presidente em Pernambuco.
A reação da campanha de Raquel ganhou uma dimensão ainda mais visível neste sábado (26). Depois de uma agenda inicialmente concentrada em Petrolina e Bom Jardim, a candidata promoveu forte mobilização no Recife, na Rua da Aurora. A atividade ocorreu um dia depois da mobilização de Lula e João Campos no Marco Zero e foi apresentada como uma demonstração de presença da campanha na capital.
Do outro lado, João Campos passou o sábado no Sertão do Pajeú, percorrendo seis municípios. Em Tuparetama, uma carreata foi suspensa por decisão da Justiça Eleitoral diante da avaliação de que não havia efetivo policial suficiente para garantir a segurança do evento. João respeitou a decisão e utilizou o episódio para defender a ampliação do policiamento no interior, afirmando que pretende reforçar o efetivo também fora da Região Metropolitana.
O contraste entre as agendas dos dois principais candidatos resume o momento da campanha: enquanto Raquel busca ampliar sua presença territorial e reagir à forte exposição de João na capital, o socialista tenta transformar a mobilização obtida com a presença de Lula em impulso para os últimos dias de campanha.
As pesquisas ajudam a dimensionar o grau de equilíbrio. A Quaest divulgada na quarta-feira (23) mostrou Raquel com 41% e João Campos com 39% no primeiro turno, dentro da margem de erro de três pontos. Na rodada anterior, Raquel tinha 43% e João, 37%, indicando crescimento de dois pontos para o socialista e oscilação negativa de dois pontos para a governadora. No segundo turno, a mesma pesquisa registrou 43% para Raquel e 41% para João, também em empate técnico.
Poucos dias antes, a AtlasIntel havia encontrado uma diferença ainda menor: 48,6% para Raquel e 47,4% para João no primeiro turno, com margem de erro de dois pontos percentuais. No segundo turno simulado, Raquel aparecia com 49,2% e João com 48,5%, novamente dentro da margem de erro.
Já o Datafolha divulgado na quinta-feira (24) mostrou Raquel com 48% e João Campos com 44%, também em situação de empate técnico pela margem de erro de três pontos.
Os números, portanto, não apontam para uma fotografia única, mas revelam um elemento comum: a disputa entre Raquel Lyra e João Campos chegou à reta final sem uma vantagem estatisticamente consolidada de um sobre o outro nos principais levantamentos recentes. É nesse ambiente que as campanhas entram na última semana, ampliando agendas, mobilizações, ataques, respostas e tentativas de conquistar os eleitores que ainda não definiram completamente seu voto.
A eleição que começou com cenários bastante diferentes chega ao seu momento decisivo com os dois principais candidatos mobilizando suas estruturas e disputando espaço tanto no Recife quanto no interior. A presença de Lula ao lado de João Campos, a resposta de Raquel na capital, o embate em torno das bets e a sequência de pesquisas tecnicamente equilibradas dão à última semana um peso especial na corrida pelo Palácio do Campo das Princesas.
E, a partir deste domingo, cada nova agenda, declaração, debate e pesquisa passa a ser acompanhada em um intervalo cada vez menor até a abertura das urnas em 4 de outubro.









