
Raquel Lyra tenta recompor alianças e acelerar entregas sob pressão eleitoral
Ismael Alves – Às vésperas de 2026, ano eleitoral, o governo Raquel Lyra já acendeu o sinal de alerta. A gestão sabe que precisa trabalhar sob senso de urgência para manter vivo o projeto de reeleição e a permanência no Palácio do Campo das Princesas por mais quatro anos.
O problema é que, até aqui, pouco do plano de governo apresentado em 2022 saiu do papel. Diante da ausência de entregas concretas, Raquel optou por insistir em uma narrativa já conhecida, a de atribuir ao governo anterior a responsabilidade por promessas não cumpridas. O exemplo mais simbólico é o das 260 creches anunciadas durante a campanha, mas que, às portas do último ano de mandato, não resultaram em nenhuma unidade concluída.
Nesse caso, não há como terceirizar responsabilidades. A frustração administrativa tem um endereço claro, o próprio governo. Raquel Lyra ousou prometer em quatro anos aquilo que não conseguiu executar em mais da metade do tempo disponível. Ainda que tenha dado início a projetos importantes e aguardados, como o Arco Metropolitano, o que pesa na balança eleitoral é o resultado efetivo, e ele ainda não apareceu.
Os motivos são variados. Desde o tempo excessivo gasto para montar a equipe de governo, o que comprometeu serviços básicos, até falhas administrativas difíceis de explicar. Houve setores inteiros travados por falta de nomeações, como ocorreu na emissão de CNHs, um serviço essencial que ficou paralisado por ausência de comando. E, como bem dizia Mario Quintana, o tempo não espera por ninguém.
As pesquisas eleitorais, reiteradas por diferentes institutos considerados sérios, mostram um governo estagnado na casa dos vinte e poucos pontos de intenção de voto, além de índices elevados de rejeição. Nesse cenário, Raquel percebeu que não enfrenta somente adversários políticos, mas também o relógio.
Foi a partir daí que a governadora passou a recalcular rotas. Um dos movimentos mais evidentes foi a tentativa de se aproximar do presidente Lula, na expectativa de associar sua imagem a um líder que mantém forte aceitação em Pernambuco. O gesto, no entanto, não encontrou reciprocidade. Lula se manteve indiferente, o que desagradou Raquel e levou a uma mudança de postura.
Em agosto, a governadora deixou de receber o presidente em Pernambuco, optando por cumprir agenda no Sertão. A ausência abriu espaço para que João Campos ocupasse o vácuo político. O prefeito do Recife se declarou soldado de Lula e lembrou que Eduardo Campos, quando governador, fazia questão de receber o presidente em todas as suas visitas ao estado, por relação política, mas também por respeito institucional.
Com o avanço do calendário e a consolidação das pesquisas que apontam Raquel cerca de 30 pontos atrás de João Campos, a governadora voltou a mudar de direção. O gesto mais claro foi o cancelamento de compromissos, inclusive com a imprensa estadual, para atender a um convite de Lula em Brasília. A mesma governadora que havia priorizado o Sertão em detrimento da agenda presidencial na capital, correu agora para não ficar fora do radar.
Enquanto Raquel busca um rumo político, seu grupo enfrenta um movimento inverso. Nos últimos dias, quatro prefeitos deixaram sua base de apoio, incluindo o de Santa Maria do Cambucá. A debandada confirma uma leitura já feita por observadores políticos, com um agravante, a antecipação.
A perda de aliados é reflexo direto de uma relação distante entre o governo e seus próprios apoiadores, sobretudo aqueles que estiveram ao lado de Raquel Lyra desde o início. Muitos passaram dois anos na geladeira, sem diálogo, sem espaço e sem retorno político. Em ano pré-eleitoral, o resultado desse afastamento começa a aparecer.







