
Itacuruba e os impactos da Barragem de Itaparica na vida do povo sertanejo
Ismael Alves – Distante cerca de 480 km do Recife e cravado no Sertão do São Francisco, está o município de Itacuruba, apontado pelo IBGE como o de menor população de Pernambuco, com pouco mais de 4 mil habitantes. A cidade foi emancipada em 1963, deixando de ser um povoado de Floresta e passando a escrever sua própria história ao longo de 62 anos.
Mas, além dos desafios típicos da vida sertaneja, uma intervenção humana marcaria para sempre a memória do povo itacurubense. Na década de 1980, a população que vivia às margens do Rio São Francisco, sustentando-se com a pesca, a agricultura ribeirinha, o comércio fluvial e a criação de animais como cabras, bodes e bois, viu o cotidiano ser transformado pela construção da Barragem de Itaparica, pela Chesf.
A canção “Sobradinho”, de Sá e Guarabyra, lançada em 1977 e inspirada na barragem homônima na Bahia, parecia antecipar o destino de Itacuruba: “o sertão vai virar mar”. E virou. O avanço das águas forçou o deslocamento de famílias inteiras para uma nova sede, inaugurada em março de 1988, onde o isolamento e a ruptura com o modo de vida anterior deram origem a um dos episódios mais tristes da história recente de Pernambuco.
No início, as famílias foram indenizadas e receberam valores mensais da Chesf. Muitos investiram o dinheiro em casas e carros, e a súbita melhora financeira levou parte da população a abandonar o trabalho braçal. O que parecia estabilidade logo se revelou uma armadilha. A ociosidade tomou conta da nova cidade. Com o tempo, vieram o tédio, o vazio e a depressão.
A transferência para a nova sede também teve consequências profundas na economia. A agricultura, antes fértil às margens do velho Chico, nunca mais foi a mesma. O solo mais seco e a falta de irrigação constante reduziram a produção e afastaram muitas famílias do campo. O município também deixou de ser ponto de passagem fluvial, o que provocou a queda no movimento comercial e impactou diretamente as pequenas lojas e feiras que dependiam da circulação de embarcações e viajantes. Hoje, a economia local gira em torno do funcionalismo público, de pequenas atividades comerciais e de programas sociais que ajudam a sustentar a população.
Em 2007, pesquisadores apontaram que Itacuruba apresentava um índice de suicídios até dez vezes superior à média nacional, chamando a atenção da imprensa e de estudiosos da saúde mental em todo o país. Segundo os estudos, fatores como o deslocamento forçado, a perda da identidade cultural e econômica e o isolamento geográfico foram determinantes para o aumento de casos de depressão.
A nova Itacuruba, embora planejada, ficou isolada. Diferente da antiga, onde a movimentação era constante, hoje ninguém passa por Itacuruba. Apenas vai quem realmente precisa. A cidade, antes ponto de passagem e comércio, tornou-se silenciosa e introspectiva, guardando na memória coletiva a dor de quem perdeu o lugar onde nasceu.
Mesmo com o passar dos anos, a sombra da tragédia nunca desapareceu completamente. Segundo relatou ao editor deste blog a secretária de Comunicação de Itacuruba, somente em 2025 foram registradas 36 tentativas de suicídio, das quais duas resultaram em morte.
A Barragem de Itaparica obrigou o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas em vários municípios banhados pelo São Francisco, com uma área inundada de aproximadamente 83 mil hectares entre Pernambuco e Bahia. Itacuruba foi o único que precisou mudar por completo, dando lugar às águas que hoje encobrem a antiga cidade. Apesar disso, o povo de Itacuruba segue de pé. Com fé, coragem, a resistência típica do sertanejo e continua a reconstruir sua história, como quem teima em florescer no solo seco do sertão.











