Foto: Ismael Alves
Quando se fala no pleito de outubro de 2022, recorre-se a um momento de bastante efervescência social. Os números apontam para uma eleição mais disputada do nosso país, sendo ela a que despertou embates acerca poder de uma senhora que atende pelo nome de Democracia.
Quis a legislação brasileira que tivéssemos um pleito em dois turnos. Ao final do processo, como já sabemos, um antigo conhecido do povo brasileiro (Luís Inácio Lula da Silva) vencera o postulante que estava indo para a sucessão (Jair Messias Bolsonaro).
Nunca na História da redemocratização, um presidente foi para o seu terceiro mandato, destaque-se Getúlio Vargas, quando do estabelecimento do Estado Novo, conseguira chegar à presidência por meio de uma ditadura. Ademais, foi a primeira vez que um presidente em exercício concorrera a renovação de seu mandato e perde a chance da reeleição (Bolsonaro).
O que se pretendia depois do outubro último era que se desfizessem os palanques e começassem a atuar de forma republicana. A transição para uma nova página governamental era o interesse da maioria. No entanto, ergueu-se uma intentona para abjetar o processo sacramentado do sufrágio eleitoral. É fato que alguns seguimentos da sociedade se imbuíram desse interesse desprezível de quem não aceita qualquer discordância política que não seja a vitória.
Muitos acreditavam que o presidente eleito, Lula, não subiria a rampa do Palácio do Planalto, onde o chefe da nação executa sua atividade fim. No entanto, o dia que seria de chuva, segundo a previsão meteorológica, deu lugar a um dia de um sol que favoreceu a festa da democracia no último dia 1º de janeiro, marcado pela assunção do novo governo.
Lula estava acompanhado de sua esposa, Rosângela da Silva, e não a cada gesto, intensificava sua parceria de Geraldo Alckmin (vice-presidente eleito) e sua esposa Lúcia Alckmin, com quem quebrou um de tantos protocolos, desfilaram juntos, os quatro, no carro aberto da Presidência da República. Luís Inácio ainda falou de uma caneta que recebera de um popular no Piauí, nos idos de 1989 e com ela assina o ato que o tornaria Chefe do Poder Executivo da União.
Mas quem iria passar a faixa presidencial para o Presidente eleito? Pois bem, já se sabia que o ex-presidente Jair Bolsonaro não faria isso. Tendo em vista a sua ausência no território brasileiro nesta data. E eis que o cerimonial já preparava tudo para um dos atos mais significativos desse dia.
A rampa do Planalto já estava ocupada com o tapete vermelho e os militares do glorioso Exército de Caxias (os Dragões da Independência) já estavam em forma, deixando o ambiente ainda mais dignificante.
No entanto, restávamos saber como seria o próximo momento. E ele veio com uma criança negra, um professor, um metalúrgico, um indígena e uma recicladora, uma pessoa com necessidades especiais e duas pessoas que estiveram de modo perene na Vigília Lula Livre (quando o atual presidente esteve preso por quase 600 dias em Curitiba-PR) e todos subiram aquele que seria o protocolo mais distinto que haveria de ser protagonizado pelo atual gestor da nação.
Estavam todos sorridentes e de braços dados. Parecia que a democracia estaria sendo reavivada naquele gesto.
Essas pessoas, vindas do povo, foram observando as características da Faixa Presidencial e o seu contorno foi oferecido a todos os presentes, passada de mão e mão, até chegar a uma mulher negra, sendo ela que vestiu a indumentária do poder no presidente.
Darcy Ribeiro, um importante historiador e sociólogo brasileiro, escreveu “O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante de desigualdade, de descaso.” O Povo Brasileiro é uma das suas principais obras. Nos apresenta um país desigual, miscigenado e único entre demais países do globo.
O jugo de nossa gente é fruto de incontestável modo de se colocar diante das adversidades. O ato de ontem nos apresentou o brasileiro que subiu a rampa e que se indigna com desigualdade, a intransigência e acima de tudo, com o preconceito.
No trecho da canção O Tempo Não Para (Cazuza), ele diz que “…tuas ideias não correspondem aos fatos…” julgo advertir para que as ideias apresentadas naquela rampa realmente correspondam aos atos do governo que se inicia, no entanto, que aquela imagem estampada naquele espaço íngreme, seja pausada, para que nós possamos nos deleitar de tamanho simbolismo.
Márcio Bezerra – professor especialista em Ensino de História do Brasil e servidor público.













